Arquivo da tag: carl solomon

geração beat V

Kerouac e a “prosa bop espontânea”

Essa busca por uma nova forma de dizer as coisas foi incansavelmente perseguida, de maneira metódica e consciente por Jack Kerouac mais do que qualquer outro escritor beat, através de seu experimentalismo literário. Ele rejeitava a literatura mais intelectual vigente, e em busca de uma

Carl Solomon

escrita intensamente emocional, ele vai desenvolver um estilo próprio que desprezava as regras gramaticais tradicionais. Esse estilo se cristalizou de forma mais ou menos acabada em “On The Road”. Seu método literário é explicitado na própria maneira de conceber suas obras. “On The Road” foi escrito em um rolo de papel contínuo, durante 20 dias e noites de transe permanente sob o efeito  de benzedrina durante o mês de abril de 1951. Outro exemplo interessante se refere à criação de seu livro “Os Subterrâneos”, escrito em 3 dias e noites, igualmente sob o efeito de estimulantes. Seu método de criação tinha muito em comum com a maneira de W. B. Yeats escrever sob transe, de Charlie Parker improvisar no seu sax, e de Jackson Pollock executar sua pintura de ação.

Lawrence Ferlinghetti

Ele chegou a teorizar seus métodos de escrita em ensaios como “Essentials of Spontaneous Prose”, de 1956; e “Beliefs & Techniques of Modern Prose”, de 1957. Nesses textos, são recorrentes expressões como “prosódia bop”, “prosa espontânea”, e “forma selvagem”. Em um desses textos ele afirma que escreve “no sentido de um saxofonista tomando fôlego e soprando uma frase em seu sax, até ficar sem ar novamente e, quando isso acontece, sua frase, sua declaração foi feita… É assim que separo minhas frases, como separações respirantes da mente.”
Esse estilo pode ser definido como uma tentativa de veicular a riqueza do seu campo de percepção imediata, no momento em que pensamento se desenvolve, sem qualquer espécie de censura ou elaboração intelectual  prévia, tentando captar a fluidez do pensamento, da maneira mais fiel possível, sem restrições, com todos os desvios e associações que acontecem durante o processo. Kerouac via nisso, o método mais sincero de captar os sentimentos e as experiências por que ele passava, sem recorrer a subterfúgios formais. Um outro romancista beat, John Clellon Holmes, descreve o estilo de Kerouac como “frases longas e intricadas, que se desenrolam a direito através de um denso labirinto de nuvens; frases

Neal Cassady o inspirador do personagem Dean Moriarty

espantosas, que tinham a obsessão de descrever simultaneamente a migalha do prato, o prato na mesa, a mesa na casa, a casa no mundo, mas que, para ele, ficavam sempre emperradas no engarrafamento da sua própria retórica”.
Acreditava que cada pensamento expressava uma verdade sobre a totalidade se sua personalidade, e ele via como artificial a tentativa de corrigir as frases, ou evitar tocar em qualquer assunto que fosse. Uma amputação de algum dado fundamental sobre a essência da pessoa. Era uma busca pelo que ele achava haver de mais sincero na vida, e uma tentativa de cristalizar um determinado momento com toda a expressividade possível.

Gary Snyder

Daí também o desprezo dos beats pelo formalismo acadêmico e por obras ficcionais, que consideravam artificiais. Seus romances e poemas eram baseados diretamente e suas experiências pessoais, sem adulterações ou invenções de personagens. Se alguns deles recorriam a imagens surrealistas, seria por que algumas experiências não poderiam de maneira alguma ser apreendidas de forma naturalista. Tudo estaria a serviço da expressividade. É notória a afirmação de Kerouac; “Minha obra constitui um único livro enorme, como a de Proust, só que minhas recordações são escritas na estrada e não depois, num leito de doente.” E acrescenta que todos os seus livros “não passam de capítulos da obra como um todo, que eu denomino ‘A Lenda de Duluoz’”. Durante sua carreira, o estilo sempre experimental de Kerouac apresentou modificações e evoluções na maneira de apresentar sua escrita automática, são igualmente  importantes obras como “Os Subterrâneos” (1958), “O Vagabundos Iluminados” (1958), “Maggie Cassady” (1959), “Tristessa” (1960), “Big Sur” (1962), e aquele que é considerado por muitos, inclusive pelo próprio Kerouac, como sua obra-prima, “Visions of Cody” (1972).

Anúncios
Etiquetado , , , ,
Anúncios